Agnes, claro enigma

SORRY, BABY e uma nota sobre MORRA, AMOR

Ao terminar de ver esse filme, eu não sabia se tinha gostado tanto do filme em si ou de sua personagem central. As coisas se confundem bastante em Sorry, Baby. É provável que Agnes tenha muito de Eva Victor, que a interpreta além de assinar a direção e o roteiro. O filme É Agnes, de tal maneira Eva associa o seu estilo de filmar ao jeito de ser da personagem.

Agnes é uma jovem professora de inglês numa faculdade da Nova Inglaterra. Essa região, a mais culta dos EUA, normalmente ambienta filmes cheios de livros e citações literárias. Sorry, Baby não foge à regra. Em seus primeiros minutos, pode desencorajar com as conversas entre Agnes e sua amiga-suporte Lydie (Naomi Ackie), que se mudou para Nova York e reaparece grávida e casada com outra mulher. Volta e meia, uma delas abre um livro de autor chique como Susan Sontag.

Mas as coisas começam a tomar rumo diferente quando o enredo volta no tempo para mostrar Agnes às voltas com sua tese de mestrado e um orientador cheio de sex appeal. A um certo jogo de sedução se segue um encontro que vai traumatizar Agnes pelos anos seguintes. E acentuar certos traços de comportamento da moça.

Agnes é imprevisível, tensa, meio desajustada, esquisita mesmo. A forma como ela lida com a “lembrança ruim” varia entre o desconcertante e o hilariante. Suas reações dispensam os clichês habituais porque se dão no âmbito de uma personalidade incomum. Três anos depois, ela ainda vai atribuir um ataque de pânico àquele incidente.

Do drama, Sorry, Baby vai deslizando para a comédia sem perder nenhum elemento, nem abdicar da gravidade do assunto. À medida que Agnes vai driblando todos os estereótipos da mulher solitária, o filme vai crescendo em surpresa e simplexidade (uso esse termo para significar a virtude da complexidade colocada de forma simples). Ela é clara e ao mesmo tempo enigmática.

A estreia de Eva Victor é de bater palmas. Treinada em redação de humor, inclusive para a revista feminista online Reductress e para uma série de TV chamada Eva vs Anxiety, ela nos surpreende com um mix de intensidade dramática e comicidade patética. Numa de várias cenas impagáveis, um dos amados livros de Agnes servirá para completar o serviço mal feito de sua gatinha.

O roteiro é ágil, com uma estruturação temporal curiosa e bem resolvida. A direção explora o inesperado nos diálogos e na sucessão das cenas, a ponto de deixar o filme muito parecido com a própria Agnes. Como atriz, Eva domina completamente um arsenal de sutilezas interpretativas, resultando numa atuação magnética. Ela está indicada para o Globo de Ouro de melhor atriz em drama.

>> Sorry, Baby está nos cinemas.

Grace, a estranha

Jennifer Lawrence dá um show em Morra, Amor no papel de Grace, jovem mãe psicótica, ninfomaníaca e autodestrutiva. A direção de Lynne Ramsay tem estilo. Por isso o filme não é ruim de se ver, mas falta estofo dramático para além do retrato de uma mulher com transtorno mental. É um surto depois do outro e um insistente suspense-bebê. Grace vai maltratar o filhinho? Grace vai estragar a festa? Como será que Grace vai se mutilar da próxima vez? Depois de isso se repetir ad nauseam, a coisa se torna cansativa e frustrante, servindo apenas para cortejar a morbidez da plateia. A montagem descontínua embaralha realidade e delírio aleatoriamente, a ponto de nada mais importar. Sissy Spacek, a eterna “Carrie, a Estranha”, e Nick Nolte fazem pequenos papéis de gente igualmente perturbada, mas sua presença ao menos lembra um tempo em que os filmes tinham mais substância e menos afetação.

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